INTERVENÇÃO #05

MAIO 2016 – RUA HELVETIA – Campos Elísios, São Paulo, Brasil.

Data estelar 21 de maio 2016. Planeta Terra. Nos Campos Elíseos acontece uma sessão de fotos dos habitantes da rua Barão de Piracicaba e transeuntes. Oitava etapa de intervenções de VIDAS EM OBRAS. A casadalapa se estabelece na esquina das ruas Barão de Piracicaba com Helvetia.

Enquanto o Zeca Caldeira tentava retratar a alma e a vitalidade de alguns dos sorridentes moradores do Centro, Cauê Maia criava poemas e prosa junto a algumas crianças com uma velha máquina de escrever Olivetti Electa 1976 e o Julinho combatia em salvar o mini gerador de flash e nosso equipamento de um tsunami – esgoto que estourou de repente bem no meio do nosso estúdio improvisado, eu que não conseguia deixar de observar as pessoas que vão e vem em direção ao fluxo. Enebriado pelo odor do tsunami e tocado pelo “drive” dos visitantes, comecei como faço sempre neste lugar a me interrogar sobre a nossa viagem intergalática. E me veio em mente Vinicius de Moraes e seu poema de Natal:

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Não podemos analisar uma época, um periodo histórico em um outro periodo histórico com outros parâmetros de civilização, mas acho que os marcianos e homens e mulheres do futuro se recordarão do século XXI e em particular deste país, como um dos lugares mais insensíveis ao outro, a dor do outro, a pobreza, a completa inação mediante tantas injustiças.